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Celebrações

(texto de março de 2020, revisado em agosto de 2023)

Um fim de tarde em Ipanema sem filtro — pelos olhos e lentes de Fernanda Monteiro


“Brindo à casa

brindo à vida

meus amores

minha família”

(Mar de Gente - O Rappa)


Abriu um lindo dia de sol aqui no Rio de Janeiro. Ainda há algumas nuvens branquinhas correndo rápido lá no céu e a pedra do maciço da Tijuca está molhada dos lindos dias chuvosos que acabaram de passar... Eu estava aqui pensando na vida… Adoro admirar todo nascer e pôr do sol; amo tirar um tempo gostoso para admirar o céu, a mata, os pássaros, as pessoas, as construções, as artes… Eu sei: isso é tudo muito trivial. Mas ainda assim, considero um espetáculo. E brindaria todos os dias por essas dádivas, se tivesse mais algum observador empolgado para brindar comigo.

A verdade é que eu tenho um prazer enorme de comemorar os momentos da vida, desde os mais triviais até os mais raros


A questão da abundância


Outro dia estava conversando sobre a dificuldade de estabelecer um relacionamento amoroso. Falávamos sobro o impacto dos aplicativos e o comportamento mais "liberal" na coisa da oferta maior do que a demanda [essa não era a minha teoria, só para já deixar bem claro]. A discussão girava em torno da ideia de que tudo o que está muito disponível não tem muito valor.


Foi quando lembrei que sempre me aconselharam a esnobar um pouco os caras, a não dar tanta atenção e carinho, que eles só correm atrás das “mulheres poderosas” e que não dão valor às “boazinhas”. Pois é, eu me encaixaria na classe das boazinhas... aff! Dá para acreditar que já até ganhei livros ensinando a ser "poderosa", "malvada"?


[Atualização: até hoje me incomoda essa ideia de que afeto tem que ser dosado. Parece que vivemos num tempo de anorexia afetiva. Ainda bem que achei um companheiro tão empolgado com a vida quanto eu.]

Analisando a minha vida de solteira (e também a das minhas amigas e amigos), percebi que mesmo os caras que se diziam “diferentões”, mais cedo ou mais tarde, acabavam caindo na coisa da “oferta e da procura”. Mesmo os que diziam não gostar desses “joguinhos de faz de conta que não quer nada", se comportavam tal qual os que assumiam a necessidade desses jogos. É impressionante como é difícil mudar padrões tão entranhados na nossa sociedade, não é mesmo!?


Pior é que eu sempre fui meio "lerda". Entendia que “sim” era sim e “não” era não. Nunca fui boa de xadrez, nem de baralho.... Resultado? Muitos correram atrás de mim quando eu não queria, fugiram quando passei a querer e, quando eu desisti... Aha! eles voltaram a correr atrás... ai que canseira! que preguiça! (pronto! desabafei)


Mas não foi só nos relacionamentos observei essa questão. As coisas parecem descartáveis nesse nosso mundo de consumo rápido, os tais tempos líquidos de Bauman...

Uma vez meu pai me preguntou por que eu iria comprar uma mochila cara, se, na opinião dele, eu iria cansar da mochila daqui a pouco e querer outra... De fato, era cara (300 reais na época). Mas ela atendia perfeitamente às minha necessidades e era meu estilo todinho. E, contrariando essa lógica de "enjoar das coisas", a tal mochila está comigo há mais de 5 anos. Usei por anos para trabalhar, foi nas minhas principais viagens e é meu xodó. Uso muito mesmo, e não estou nem perto de enjoar dela.

[Atualização: depois dessa tal mochila (em 2016), só comprei uma mochila térmica aqui em Portugal (em 2023), mas foi parar poder levar lanche e água para as praias, já que aqui ninguém vende biscoito globo e mate nas praias, que pena!]

Infelizmente, esse meu jeito de ver as coisa não é tão usual... Ao meu redor percebo que é comum que as pessoas valorizem o que é mais raro, ou se acostumam e perdem o interesse pelo que já têm. Aliás, não é para menos que muitas das estratégias de vendas têm por base o princípio da escassez. Tudo é raro, exclusivo, última peça ou poucos lugares no avião/hotel... ou enquanto durarem os estoques. Tudo para te fazer correr e comprar sem pensar.


Mudanças de paradigmas: Observando a natureza


Honestamente, quando olho pela minha janela e vejo essa mata tão abundante, quando vejo a minha cozinha com variedade de comida, quando vejo o pôr do sol (que vem generosamente todos os dias) eu não consigo compactuar com essa lógica de escassez. Simplesmente, não faz sentido para mim!

Ser “normal” (que segue a norma) e colocar tudo na conta dessa lei maluca de oferta e demanda só nos destrói enquanto sociedade. Então, eu prefiro ser “natural” (que segue a natureza). E você já reparou como a natureza é abundante?

Quando seguimos a lei da abundância, nos sentimos bem e queremos é que hajam mais e mais pessoas realizadas. Somos capazes de celebrar e ficamos felizes com a fartura em nossas mesa, mesmo que ela seja constante. Percebe a diferença?


Ok! Eu sei que essa não é a realidade de todo mundo. Sei que muita gente passa fome, inclusive. Mas, se eu não conseguir valorizar e ser feliz com o que há na minha vida, como é que vou conseguir multiplicar e auxiliar outras pessoas a viver algo que não sou nem capaz de celebrar?


Sabe... amo passear na floresta, mesmo que eu faça isso toda semana e celebro a felicidade das pessoas ao meu redor, independentemente do tamanho das suas conquista... às vezes a vitória é conseguir expressar algum desconforto, outras é uma promoção no trabalho, um amigo que conseguiu passar num teste, uma amiga que entrou numa empresa bacana, uma mãe que conseguiu amamentar... em fim, são tão variadas as nossas vitórias. E eu fico tão feliz de poder acompanhar, colaborar e comemorar, vocês não têm ideia!


Outro dia, fiquei super feliz quando uma amiga me disse que vai fazer a mesma formação que eu. Observe que não vejo como concorrência, mas sim como uma pessoas expandindo e se realizando tanto quanto eu. Percebe a diferença?


Pode ser herança familiar...


Na minha família de origem a gente tem o hábito de comemorar cada passo da vida. Tudo era motivo para brindar (ou para comer fora hehehe). Desde um bolinho "Ana Maria" com uma velinha um café da manhã na cama, ou cartazes na volta do acampamento da escola... até jantar em restaurante chique, lá nos melhores períodos financeiros... Nada passava em branco naquela casa. E agradeço de mais esse exemplo.


A minha família não era perfeita e a gente não vivia num mar de rosas, só para deixar claro. Mas aprendemos a exaltar o que nos faz feliz. Para terem um ideia, lembro vagamente de cantar para a lua, com meus pais, desde muito novinha (tinha menos de 4 anos de idade, eu acho).


Sei que "herança familiar" a gente não tem como controlar. Mas sempre podemos criar novos padrões de comportamento para as nossas vidas e para os que estão por vir. Podemos ser aquele que constrói um novo valor (familiar, social, corporativo...), para além dos aspectos materiais, já que os impactos emocionais podem ser bem mais duradouros.


Minha família não é rica de dinheiro e não espero ter herança material. O que recebi de mais valioso deles foi o intangível: boa educação, boa noção de saúde, muita cultura, o exemplo dos eternos namorados que são meus pais, o prazer pela arte e a mania de comemorar.


Meu protesto


Então deixo aqui o meu protesto: Quero poder beijar todo dia a mesma boca que tanto gosto (siiiim!) e sem ter que fazer de conta que não quero, sem ter que "fazer tipo". Quero poder mostrar que sou feliz nessa abundância da vida, que não precise faltar ou perder para eu dar valor ao que tenho! Quero poder puxar assunto de coisa feliz e não de reclamação na fila do pão.

Sou da terra em que se aplaude pôr do sol na praia, minha gente! Sou do Rio de Janeiro! Eu quero mais é ser e continuar sendo feliz!! Melhor ainda: eu quero espalhar uma felicidade genuína

Com meu sorriso gigante, sendo feliz no Parque Lage - RJ


Proponho então:

Um brinde ao sol! Um brinde à lua! Um brinde às estrelas! Outro brinde às nuvens e à chuva! Não podemos nos esquecer de brindar, é claro, os sorrisos verdadeiros e espontâneos... Um brinde bem gostoso à fartura! e um brinde para lá de especial ao AMOR!!!

Se sou abundância, não me peça para dar escassez, pois isso eu nem tenho para dar. Nasci com um sorriso grande que é para poder sorrir bem muito, tenho peito suficiente para amar e acolher com muito carinho, tenho olhos que brilham para poder admirar o que há de bom. Pios é, cada um só pode dar o que tem para dar… não me peça para ser menos, simplesmente não dá.


"Atirei-me ao mar

Mar de gente onde eu mergulho sem receio

Mar de gente onde eu me sinto por inteiro

Eu acordo com uma ressaca guerra

Explode na cabeça

E eu me rendo a um milagroso dia"

(Mar de Gente - O Rappa)

Brindo tudo o que me faz mais leve!! Bora celebrar?


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